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"Os políticos e economistas falam muito sobre crescimento, mas pouco sobre desenvolvimento"

LabCriativo entrevista Martin Dowle, diretor do Conselho Britânico, entidade à frente de uma iniciativa que estuda e orienta empreendimentos criativos

Tempo de leitura estimado: 5 min

O LabCriativo realizou uma entrevista com Martin Dowle, diretor do Conselho Britânico no Brasil, entidade que vem desde 2018 tocando um projeto cujo maior objetivo é contribuir com a inclusão de iniciativas na economia criativa. Recentemente, o Conselho apresentou um mapeamento sobre empreendimentos criativos e sociais. Confira os melhores trechos da conversa com o inglês.

Qual é a relação que o British possui com o DICE (Developing Inclusive and Creative Economies)?

Nós somos os donos do DICE. Foi nossa ideia começar um projeto piloto que investiga a hipótese de que a criatividade e o empreendedorismo social poderiam ser um novo método de enfrentar o desemprego nas periferias de grandes países.

Quando o DICE chegou ao Brasil?

Começamos há dois anos, em primeiro de abril de 2018. Desde então, treinamos mais de três mil pessoas em empreendedorismo criativo no país. Houve eventos de hubs criativos e treinamentos ao passo que trabalhamos com o Sebrae em São Paulo e nos nove estados do Nordeste, onde foram treinados mais de dois mil empreendedores.

O conceito de economia criativa foi inventado no Reino Unido?

Se não foi inventado, foi descoberto lá porque ela já existia, mas ninguém entendia o que vinha acontecendo até então. Há bairros famosos em Londres, menos favorecidos, que foram povoados por pessoas que fizeram indústrias criativas. Ainda assim, quando estudos sobre inclusão social foram feitos na região, descobrimos que na Grã-Bretanha indústrias criativas tiveram pouca inclusão social porque partiram de pessoas da classe média com formação e suporte financeiro que souberam como conseguir investimentos. Então pensamos há cerca de oito anos: precisamos fazer mais para que haja inclusão social no mix de tais indústrias.

O conceito nasceu em um momento histórico e de produção no qual estamos diante da 4ª Revolução Industrial. Como adaptar o Brasil a isso?

Dando um passo atrás, conhecendo o Brasil há 25 anos, os políticos e economistas falam muito sobre crescimento, mas pouco sobre desenvolvimento. São coisas totalmente diferentes. Você pode ter crescimento no Mato Grosso, por exemplo, na agricultura, mas você não produzirá mais empregos. A necessidade de trabalho fica mais nas periferias das cidades. O IBGE recentemente lançou uma estatística de 39 milhões de pessoas na informalidade. Quem na política está pensando nessas pessoas? Mas nossa proposta é que nós temos que pensar porque essas pessoas podem estar vulneráveis, mas têm cérebros e criatividade. Por que não dar ferramentas para que essas pessoas organizem o próprio negócio com algum tipo de introdução de técnicas para dirigir as próprias empresas.

É isso que o DICE faz?

Sim, em cinco países. Por ser um projeto piloto, Brasil, Paquistão, Egito, Indonésia e África do Sul foram selecionados. No caso do Brasil, o país foi incluído porque fizemos trabalhos sobre empreendedorismo por aqui e quando fomos buscando locais, o território regional se mostrou fértil. Na verdade, nossa pesquisa mais recente mostra exatamente isso: que as empresas sociais e criativas empregam mais pessoas LGBTQ+, com deficiências, mais mulheres negras, mas o último ponto ainda precisa ser aprimorado.

Qual seriam as principais características da economia criativa no Brasil?

São muito diversas, mas em termos de indústrias e companhias criativas que também são sociais seria que elas têm um bom entendimento dos objetivos estratégicos de desenvolvimento da ONU. Por exemplo, conhecem bem a ideia de empregar as pessoas da própria comunidade e dar oportunidade para pessoas de minorias étnicas ou em situação de vulnerabilidade social para que subam na pirâmide da companhia.

Qual a importância da economia criativa no futuro próximo?

Ela precisa ser um dos próximos passos da economia convencional porque muitas funções que hoje são feitas por humanos serão liquidadas e feitas por computadores e máquinas. O Brasil não produziu muito bem para a 3ª Revolução Industrial. Agora enfrenta a 4ª sem ter resolvido questões da 3ª. É fundamental que os governos entendam que o humano tem o cérebro que vai além do que a máquina pode fazer. O humano precisa estar um passo à frente para gerar renda e emprego.

Qual é a coisa mais importante que um brasileiro deveria saber sobre economia criativa?

Primeiro, brasileiros devem entender a própria capacidade de educação no país, que não prepara as pessoas, em geral, nem para serem alfabetizada. Mas as pessoas precisam ter confiança em si mesmas e saberem que se possuem alguma ideia é possível obter ferramentas e conhecimento para gerenciá-la.

Há quase duas décadas de invenção do termo economia criativa. A visão inicial em torno do termo se concretizou?

Sim, cito um exemplo da Grã-Bretanha. Mais pessoas estão empregadas na indústria criativa do que nos segmentos de engenharia, mineração e fábricas. Tudo está mudando. É preciso que as pessoas se organizem e aprendam a monetizar as próprias iniciativas porque economia criativa é aquilo feito pela capacidade de encontrar soluções na cultura.

Esse texto faz parte de uma trilogia sobre um mapeamento, publicado em marços de 2020, sobre empreendedorismo criativo e social. Leias as parte 1 e 3.

Postado em March 4, 2020, 6:26 p.m.

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