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Cultura ágil, cultura organizacional, cultura forte, cultura de inovação, etc. etc. etc. Mas, e aí, o que é cultura?

Tempo de leitura estimado: 6 min

Muita gente tem falado sobre “cultura”. 

Cultura organizacional. Cultura digital. Cultura ágil. Cultura de consumo. Cultura forte. Cibercultura. Cultura, cultura, cultura, etc., etc., etc. 

Mas e aí, o que é cultura?

O que significa esse termo que tem sido usado massivamente por aí? E usado, muitas vezes, sem nenhuma reflexão (ou até real conhecimento) sobre o que ele de fato traz como significado. 

A ideia aqui neste artigo então é pontuar, bem rapidamente e de forma não acadêmica, alguns pontos importantes sobre o conceito de cultura e termos associados (como endoculturação, etnocentrismo e outros).

Bom, no senso comum, cultura muitas vezes é algo que as pessoas associam às diversas manifestações e formas de arte (música, teatro, dança, shows, cinema etc.), a algum estereótipo que represente um país/localidade específicos ou também algo associado à intelectualidade (você já ouviu as pessoas dizerem alguma frase do tipo: “ele é tão inteligente, tem tanta cultura”?). 

Todas essas coisas são aspectos que, muitas vezes, representam questões culturais sim. Afinal, foram criadas, desenvolvidas, aprendidas, repensadas e sendo aprimoradas a partir da comunicação e da convivência social.

Segundo Laraia, antropólogo brasileiro e autor do livro “Cultura, um conceito antropológico”, devemos entender o homem como um ser predominantemente cultural: os seus comportamentos, ações e pensamentos não são biologicamente direcionados, todos estes atos dependem inteiramente de um processo de aprendizado.

De acordo com Felix Keesing, antropólogo neozelandês, “não existe correlação entre a distribuição dos caracteres genéticos e a distribuição dos comportamentos culturais. Qualquer criança humana pode ser educada em qualquer cultura se for colocada desde o início em situação de aprendizado”.

Sim, como você talvez já pudesse imaginar: o comportamento das pessoas sempre advêm do seu aprendizado, o que chamamos de processo de endoculturação

Por exemplo, um menino e uma menina muitas vezes agem de forma diferente não em função de seus hormônios e questões genéticas, mas em decorrência de uma educação diferente; de processos de aprendizado diferentes aos quais são expostos. Inclusive, a este respeito, estudos antropológicos vêm, há anos, mostrando que muitas das atividades atribuídas às mulheres em uma cultura são destinadas a homens em outra cultura. 

Essa questão que trata do caráter de aprendizado da cultura, em contraste à ideia de que questões culturais poderiam ser associadas a componentes genéticos, é um dos pontos mais importantes sobre o tema. 

A palavra cultura tem duas etimologias mais difundidas: 

  1. cultura do latim “culturae”, que significa “ação de tratar”, “cultivar”, ou “cultivar a mente e os conhecimentos”;
  2. cultura de “kultur” (termo germânico), que significa simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade + “civilization” (palavra francesa) que tem como significado “realizações materiais de um povo”.

É muito difícil chegar a um conceito redondo e definitivo sobre o que é, afinal, a cultura.

Mas, em seu amplo sentido antropológico, pode-se dizer que cultura seria todo esse sistema complexo que inclui símbolos, leis, linguagem, acordos, conhecimentos, religiões, arte, costumes, crenças, valores e quaisquer outras capacidades e hábitos aprendidos pelas pessoas como parte de um grupo social (seja este grupo a sociedade inteira de um país, os membros de uma comunidade de yoga, ou os funcionários de uma empresa, por exemplo).

Neste contexto, uma questão importante a ser mencionada quando se fala de cultura é o etnocentrismo. O etnocentrismo, como diz Laraia, é um comportamento universal. 

As pessoas enxergam e interpretam o mundo por meio da sua cultura e, por isso, têm uma tendência inconsciente de considerar aspectos do seu comportamento como mais naturais, ou até mais corretos. Essa tendência é o que denominamos de etnocentrismo.

Comportamentos etnocêntricos podem ser identificados quando acontecem julgamentos negativos sobre os padrões culturais de outros grupos ou outros povos (crenças, costumes, etc.). Diminuir ou debochar de aspectos culturais importantes para uma outra sociedade é, portanto, ter uma postura etnocêntrica. Por isso, Laraia adverte: “a coerência de um hábito cultural somente pode ser analisada a partir do sistema a que pertence”.

A situação oposta ao etnocentrismo é o que chamamos de apatia cultural. Ela acontece quanto, ao invés de exacerbar os valores de seu próprio grupo e julgar os demais (postura etnocêntrica), em determinada situação de crise ou cenário conturbado, os membros de um grupo social (que compartilham algum tipo de cultura) abandonam o(s) componente(s) que os conectam e acabam vendo enfraquecidos os aspectos que os mantinham unidos.  

Bom, o assunto é longo e poderíamos falar sobre várias outras questões associadas à ampla discussão sobre cultura (conflitos/disputas culturais, alteridade, o fato de as pessoas conformarem a cultura - serem parte dela - e não de enxergamos a cultura como uma mão invisível estrutural, etc.), mas quero só mencionar uma última coisa que considero fortemente importante ao se falar deste tema e que é algo compartilhado entre quase todos os estudiosos da área (e falo “quase” só pra não correr o risco de ser taxativa, mas poderia dizer “todos”): a cultura tem caráter dinâmico e inacabado.  

As pessoas de uma sociedade, ou de grupos sociais específicos, têm a capacidade de questionar seus próprios acordos, costumes, hábitos, etc., e então alterar tais coisas. Todos os sistemas culturais estão num constante processo de modificação.  

As mudanças culturais, por mais microscópicas que sejam, representam um conflito: o embate entre o chamado status quo e as tendências-forças inovadoras. 

Estar ciente deste caráter dinâmico e inacabado das culturas é fundamental.

Tão importante quanto a compreensão das diferenças entre grupos de culturas diferentes, é o entendimento das modificações que acontecem dentro do mesmo sistema.

Saber disso e buscar encontrar um ponto de equilíbrio para lidar da melhor forma com as inevitáveis chamadas “mudanças de cultura” não é muito uma escolha, é imprescindível (desde sempre, claro, mas muito intensamente nos últimos tempos - considerando-se que os cenários mudam cada vez mais rápido).

Esse é só o começo da troca de ideias sobre o tema. Vamos conversar mais sobre isso?

Se quiserem, podem comentar aqui, me mandar direct ou email ([email protected]), pra continuarmos o papo ou pra trocarmos referências/livros/artigos/cases/etc.

:) Se você chegou até aqui, obrigada pela atenção! rs.

Postado em Oct. 9, 2019, 4:59 p.m.

Iara Vianna
LabCriativo / Creator



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